cartas a ele. é um ciclo de oito performances realizadas em espaços públicos e junto a monumentos da cidade de São Paulo. Cada ação parte de uma presença inscrita na paisagem urbana para colocar em tensão as narrativas históricas que esses monumentos preservam, celebram e naturalizam.
Desenvolvido por meio de caminhadas, pesquisa de campo e experimentações performativas, o projeto aproxima corpo, memória e cidade. As ações criam situações de confronto, deslocamento e participação, interferindo temporariamente na leitura desses espaços e propondo outras formas de observar as imagens e discursos que organizam a memória pública.
Realizado como projeto autônomo, cartas a ele. deu origem posteriormente a novos desdobramentos da pesquisa, entre eles o espetáculo ERRANTES, criado em 2022.
SOBRE O PROJETO
A pesquisa de cartas a ele. toma os monumentos como presenças ativas na cidade, capazes de produzir e perpetuar determinadas versões da história. Em vez de tratá-los apenas como objetos a serem observados, cada performance estabelece uma relação específica com o monumento, com sua localização e com as pessoas que circulam ao redor dele.
As ações foram construídas a partir das características de cada espaço e assumem procedimentos diferentes: deslocamentos, ocupações coletivas, intervenções sobre textos e imagens, objetos, jogos de linguagem e situações de participação. Em comum, procuram interromper temporariamente a leitura habitual desses lugares e produzir outras relações entre corpo, memória e espaço público.
AS PERFORMANCES
Aprender a ler pra ensinar os camaradas
Monumento a Duque de Caxias · Praça Princesa Isabel, São Paulo
A ação convida passantes a oferecer uma palavra a partir de uma reflexão proposta pelos performers. Em seguida, o grupo compõe coletivamente cada palavra com cartazes e ocupa a faixa de pedestres durante o intervalo do semáforo, inserindo essas respostas no fluxo cotidiano da cidade.
Parla Italiano?
Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico · Parque da Barragem da Guarapiranga, São Paulo
A ação aproxima o público do Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico, construído em homenagem às travessias aéreas realizadas em 1927 e marcado também por referências à Itália fascista. O monumento é deslocado de sua condição habitual de marco comemorativo por meio de uma aproximação física e atenta àquilo que sua materialidade, seus símbolos e sua história ainda fazem reverberar no presente.
O melhor Borba do mundo é aqui
Monumento a Borba Gato · Santo Amaro, São Paulo
A ação organiza dois grupos vestidos formalmente de preto que atravessam, de maneira sincronizada, a faixa de pedestres diante do Monumento a Borba Gato. Nos intervalos do trânsito, distribuem aos motoristas um folheto publicitário que anuncia um novo empreendimento imobiliário construído sobre o próprio monumento. A intervenção apropria-se da linguagem da publicidade e da especulação imobiliária para deslocar a presença de Borba Gato na paisagem urbana e colocar em circulação outras formas de atribuir valor, ocupar e imaginar aquele espaço.
Maremorte
Monumento a Pedro Álvares Cabral · Parque Ibirapuera, São Paulo
A ação reúne os performers ao redor do Monumento a Pedro Álvares Cabral, vestidos com roupões e munidos de recipientes e esguichos de água. O monumento e as inscrições de sua base são continuamente molhados, fazendo do gesto uma intervenção sobre a narrativa celebratória inscrita naquele espaço e sobre a memória colonial que ela preserva.
Deixa que eu empurro
Monumento às Bandeiras · Praça Armando Salles de Oliveira, São Paulo
A ação transpõe para o fluxo da cidade o gesto que dá ao Monumento às Bandeiras um de seus apelidos populares. Diante da escultura, um automóvel é empurrado coletivamente pelos performers, que carregam uma faixa com a frase “Deixa que eu empurro”. A intervenção aproxima a imagem monumental do esforço e do deslocamento de uma situação cotidiana, criando uma sobreposição entre o monumento, os corpos e o trânsito ao seu redor.
Bloco do Mijo
Monumento ao Imperador Otávio Augusto · Largo do Arouche, São Paulo
A ação conduz o público por um percurso sonoro pelo Largo do Arouche, iniciado em frente ao Mercado das Flores e finalizado no Monumento ao Imperador Otávio Augusto. Por meio de um audioguia, a própria estátua assume a voz da narrativa e mistura vivências de frequentadores do Arouche, memórias do lugar e acontecimentos reais ou ficcionais. Ao final do trajeto, o público é surpreendido pela inauguração de um pinico público instalado na base do monumento e convidado a participar, junto aos performers, de uma celebração coletiva em forma de festa e carnaval.
Cachaça é água que acaba com o caboco
Monumento a Anhanguera · Avenida Paulista, São Paulo
A ação parte do episódio em que Anhanguera teria ameaçado os indígenas goyá a incendiar seus rios. A partir dessa narrativa, os performers convidam passantes a responder à pergunta “Que bandeiras precisam ser levantadas no Brasil de hoje?”. As respostas são escritas sobre tecidos presos aos corpos dos performers, posteriormente transformados em estandartes e conduzidos pela Avenida Paulista.
Eu também estava lá!
Monumento Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo · Pateo do Collegio, São Paulo
A ação acompanha um homem negro vestido de terno que caminha em torno do Monumento Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo, mantendo o olhar voltado para o topo da obra. De sua pasta escorrem gotas vermelhas, como sangue, que deixam um rastro no chão e formam um círculo ao redor do monumento.
DESDOBRAMENTO EM ERRANTES
A pesquisa desenvolvida em cartas a ele. foi retomada posteriormente na criação de ERRANTES, espetáculo realizado em 2022. O trabalho dá continuidade às questões investigadas no ciclo, deslocando para a cena procedimentos e inquietações surgidos das relações entre corpo, memória, monumento e espaço urbano.
FICHA ARTÍSTICA
Realização
Núcleo Barro 3
Coordenação
Lucas França
Performers
Rosana Pimenta, Gustavo Braunstein, Guto Vieira, Catarina Milani, Jefferson Brito Ramos, Letícia Oliveira, Fellipe Oliveira e Paulo Kizumba
Direção Audiovisual e Edição
Cesar Barbosa
Fotografia
Thiago Rodrigues
Câmera
Kaique Chock
Fotos
Douglas Scaramussa
Arte Gráfica
Estúdio Pavio
Produção
Movicena Produções (Jota Rafaelli)
Assistência de Produção
Jéssica Policastri
APRESENTAÇÕES
Realizado em 2022, em espaços públicos e junto a monumentos da cidade de São Paulo.
APOIO
ProAC Expresso Lei Aldir Blanc nº 36
13ª Edição do Prêmio Zé Renato de Teatro para a Cidade de São Paulo